Divagando.....




Retenho ainda na minha memória as imagens, os sons e os cheiros da Capital do país dos anos quarenta. Por essa altura, Lisboa era uma cidade pacata, provinciana, romântica e musical. Muito menos poluída e menos “stressada”, mas "ladina" e bastante trabalhadora.

Ás primeiras horas da madrugada, toda a cidade começava a despertar. Ainda o sol não tinha nascido e já a voz arrastada mulher da fava-rica se fazia ouvir. Cresci a ouvir estes outros pregões, quase sempre cantados e compassados, as vozes e pregões da leiteira, do padeiro, da mulher dos figos, da varina, do amolador e da sua flauta do petroline e outros.

De manhã até ao pôr-do-sol, este cantar dos vendedores ecoava por toda a cidade como solistas do coro de uma orquestra monumental. O ruído dos motores e das buzinas dos poucos carros e camionetas que circulavam, na cidade misturado com o trotar ritmado dos cascos das mulas e machos que puxavam as carroças e as galeras, que rolavam na calçada de basalto, era o som de fundo, quebrado de vez em quando, pelo “tilintar” alegre das campainhas dos carros elétricos que no seu vai e vem, pincelavam de amarelo o cinzento das ruas.

Das tascas do largo de Alcântara elevava-se um cheirinho a iscas e passarinhos fritos, que pairava no ar junto com o som abafado de uma telefonia que deixava reconhecer a voz de Hermínia Silva cantando o fado “A Tendinha na sua maneira singular.

Lembro-me do quiosque onde, parava antes de ir para a escola quando recebia da minha mãe uns tostões para comprar os rebuçados que desembrulhava para retirar os cromos do futebol, que iriam preencher a caderneta, a qual quando me saísse “o mais custoso”, me daria direito a uma bola de futebol. Que nunca me saiu.

Os operários de boina ou boné e de fato-macaco remendado, com as suas lancheiras do almoço, estugavam o passo, a caminho das fábricas ou oficinas cruzando-se nos passeios e na rua, com mulheres de xaile, lenço e chinelas.

O dinheiro era escasso. Os alimentos e os combustíveis estavam racionados, por causa da guerra que grassava pela Europa. Havia bichas por todo o lado, passei algum tempo em algumas com a senha do racionamento na mão.  Recordo dessa altura  os vidros das janelas com tiras de papel coladas em cruz ou em "X", e dos carros com os faróis pintados de azul. (receando um possível ataque aéreo, o que felizmente não aconteceu). Por essa época, era eu um jovem preocupado apenas em não deixar os trabalhos de casa por fazer, para evitar as temíveis palmatoadas do meu professor primário, ou no mínimo uns puxões de orelha.
Relembro a Lisboa dos anos 50, já mais urbana mas ainda com muito de rural.
Vem-me ainda à memória, quando chovia, no Outono ou no Inverno, o brilho das pedras de basalto, refletindo as luzes das montras, dos faróis dos carros que passavam e da luz colorida dos reclamos luminosos. Dos ardinas subindo e descendo dos elétricos em movimento e apregoando: “Diário de Lisboa ó Pupular” do burburinho à porta do Parque Mayer em dia de revista. Recordo-me de frequentar os cinemas, Condes, Politeama, Éden Teatro, Tivoli, São Jorge, e Monumental, no alvorecer do cinemascope, onde assisti a filmes memoráveis, que alimentavam os meus sonhos e libertavam as minhas emoções.

Tenho também memórias dos cheiros, das castanhas quentinhas e cinzentas, da fruta madura e das sardinhas assadas, da “ginjinha” e dos “eduardinhos” Mas também do cheiro da tinta dos jornais acabados e sair do prelo. o cheiro das pomadas e das tintas do engraxador e outros que seria fastidioso numerar.

Embarquei para Angola em 1958 e a partir desse dia ficou só a marca da saudade. Quando voltei anos depois, a cidade estava transfigurada, restavam apenas aqui e ali farrapos da memória da minha infância.

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